A MÁQUINA DO POEMA, O MARCO DO POETA

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

W. J. Solha é reconhecidamente um artista múltiplo e intenso. Sua maquinaria criativa se expressa nas mais diversas linguagens, mantendo um nível impressionante de equilíbrio estético e inventividade, seja como ator, escritor, artista plástico, roteirista, dramaturgo… Sua volumosa obra vem sendo apresentada no âmbito da literatura de forma cada vez mais inquieta e próxima de um marco cheio de referências intelectuais.

É o caso do recém lançado Marco do Mundo (Ideia, 2012), um poema longo que dá continuidade a sua trilogia iniciada em 2004 com o impactante Trigal com Corvos (vencedor do Prêmio U.B.E do Rio de Janeiro em 2005). O terceiro volume da trilogia que possui o título provisório de “Ecce Homo” já está a caminho e promete compor o seu panorama poético definitivo.

“Marco do Mundo” é um poema denso e abrangente em vários aspectos, repleto de referências intelectuais e artísticas. Um itinerário de compulsões, devaneios, impulsos e alusões diversas, tecendo um universo caótico de leituras sobre marcos literários, artísticos, naturais e históricos, que cadenciam o processo de leitor do mundo do autor. W. J. Solha vai montando um poema, que de maneira “surreal”, dialoga com seus “mestres diversos”, edificando em cada andar, confuso e cheio de “abalos”, uma “tresloucada Babel”, aglutinado assim seres e objetos das mais distintas eras.

O livro pode ser considerado como uma incursão na complexa teia do fazer poético, trazendo uma “noção de poema saga”, como bem afirmou o escritor Fabrício Brandão. Porém tal saga não traz aventuras romanceadas, mas sim uma ação angustiante de um artista que não cabe no seu próprio universo de criatividade, extrapolando os sentidos e limites da vida através da arte, em cores pintadas por legados aflitivos. Daí sua busca incessante por seu “Marco do Mundo”:

“Embora espere tanto de si quanto de um pianista de bar

 ou de escultor de vitrina

o Poeta tem,

á custa da disciplina

a mente tomadas de dados,

vinda de todos os lados,

(…)” (pp.21/22)

 

Uma bricolagem descomunal, uma máquina sendo montada, cada peça no consciente e inconsciente de um artista “incomodado” com a realidade interna, seduzido pelas loucuras da obra épica, trazendo para cada linha um marco sem limites de referências intelectuais.  Marcos estes artísticos e históricos prioritariamente, onde couberam suas obsessões e temas recorrentes em outras obras, como as peças de Shakespeare, a bíblia (principalmente no que se refere à dessacralização), a poesia popular, o expressionismo alemão, a pintura renascentista, a física quântica…

Estas paisagens ou territórios afetivos e estéticos vão sendo montados de forma intensa e Solha inebria seus leitores com uma cartografia do excesso, em que nomes, obras e lugares vão sendo jorrados como uma cachoeira, em sua construção épica, num jogo de libertação e ao mesmo tempo de domínio da palavra. Ao final o Poeta canta o seu enigma e relata o seu propósito:

“Cabe ao Poeta

 portanto,

 avançar,

 intrépido

 na página em branco”

(p.97)

Aoperceber certa necessidade impiedosa de vencer o tempo e a morte, o escritor W. J. Solha angustiasse com o passar das horas, dos dias, dos anos, pois tem muito a dizer ainda, mesmo que o tempo venha corroendo sem piedade o seu corpo. Aos seus 71 anos de idade, visitando o próprio itinerário do seu desequilíbrio erudito, o seu marco do mundo é a prova cabal disso, que o artista inquieto e múltiplo ainda tem muito a expressar através das palavras.

Origem: Publicado no Jornal Contraponto e no Blog do Caixa Baixa em 2012.

Livro: SOLHA, W.J.  Marco do Mundo.João Pessoa: Ideia, 2012.

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O EU E O NÓS NA POÉTICA DE CARLOS ARANHA

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

“Eu já era /poeta solitário/ fazendo artigos/ como se fossem/ discos, filmes, canções/”.

O trecho do poema “Veja” contido na obra inaugural “Nós an Insight” (Linha d’água, 2011) de Carlos Aranha é revelador em diversos aspectos. Conhecido em todo o estado da Paraíba por sua militância artística, principalmente no jornalismo cultural, Carlos Aranha demorou décadas para publicar o seu primeiro livro. Esta ausência criou uma imensa expectativa por parte dos seus leitores diários e artistas que vem observando desde a década de 1960, sua atuação na produção de peças, discos e filmes, entre outras linguagens.

Carlos Aranha é um destes nomes que ainda mobilizam o cenário cultural da Paraíba na atualidade (em especial de João Pessoa). Suas opiniões criam certas concordâncias e rejeições e são avaliados sempre como posicionamentos coerentes, atuais e firmes. Aliás, como sua própria poesia e personalidade. Filho das vanguardas estéticas brasileiras, como o Tropicalismo e o Cinema Novo, Aranha vivenciou particularmente os movimentos culturais em seu estado, incorporando atitudes, discursos e imagens, que levaram a compor o seu repertório poemático.

“Nós an Insight” caracteriza-se pelo impulso poético do seu autor. Numa percepção “motora do instante”, Carlos Aranha deflagra uma hermenêutica própria de sua geração, marcada pela herança errante das vanguardas, em especial a tradição tropicalista (da qual Caetano Velloso se mostra como um guru inspiratório). Mas não é só isso quando se fala em inspiração ou diálogo emotivo e cultural, percebe-se claramente um “intercâmbio atemporal” com a poesia de Augusto dos Anjos.

A alusão dicotômica “O Eu / O Nós” é a espinha dorsal da gramática estética que nos apresenta Carlos Aranha. O “Eu de Augusto” absorve então os outros, numa poética sofisticada e madura, da qual referências “pop’s e cult’s” vão sendo apresentadas. Cada verso surpreende vindo como um signo rompido, alucinante, numa obra aberta (no dizer de Umberto Eco). Exemplo máximo da relação “O Eu/O Nós” que podemos trazer de início é o poema “Nós”, que abre o livro:

“Assumo o ser que somos nós

Deus é ser de tom tamanho

Que seu silencio é som da nossa voz”

(p.17)

Outro dado importante na poesia de Carlos Aranha é o lado crítico, nunca contemplativo da realidade. A cidade de João Pessoa, as amizades culturais, os filmes, as referências estéticas, – nada passa sem um olhar avaliador, elucidativo, às vezes quase prosaico, como no poema “Yesterday’s apocalyse”, onde sobram críticas ao formalismo e a hiperinterpretação por parte da crítica literária contemporânea.

Marca presente na poesia de Carlos Aranha é a “implosão das identidades”, onde os lugares, as culturas e as pessoas, numa maquinaria múltipla de referências, se dispersa, sem conexões aparentes.  Tudo numa interligação de artistas, filmes, peças, num culto a “diversidade do mundo”, presente especialmente no poema “Pra que Tant’identidade”:

“A diversidade canta em seus versos

Porque a poesia

Quando se conflita

É mais que o vão vôo da vida”.(p.25)

 Nesta incursão identitária, cabem poemas em inglês, memórias da repressão, cânticos de amor a cidade de João Pessoa, diálogos com artistas amigos como o escritor José Nêumanne Pinto e a compositora Cátia de França, a afetividade sexual na presença festiva dos corpos. A universalidade artística em diálogo constante com a localidade cultural: “Meu espírito paira/ entre Nova York e Cruz das Armas” (p.80)

Todavia, acredito que, de todos os poemas, aquele que representa mais o universo poético de Carlos Aranha neste seu primeiro livro, é “About me”. Demarcado por uma memória afetiva, o autor se despe num jogo de revelações pessoais, em que os lugares, os endereços de sua subjetividade ficam mais nítidos e lúcidos diante das incertezas do passado, do presente e do futuro.

Mesmo tendo um traço prosaico, que muitas vezes se afasta da poesia, Carlos Aranha estreou bem, num livro forte e ousado, cheio de instantes marcantes. “Nós an Insight” é uma obra viva e reveladora, advinda de um poeta que não cabe dentro de si mesmo, que transcende as suas referencias estéticas, os lugares e as culturas, numa corrida louca e interna entre o Eu e o Nós de cada dia.

Livro: ARANHA, Carlos. Nós an Insight. João Pessoa: Linha d’água, 2011.





UM CÂNTICO DESSACRALIZADO

29 11 2012


 Por Bruno Gaudêncio

A Paraíba é reconhecida nacionalmente como um estado brasileiro de bons poetas. Nomes como Augusto dos Anjos, Leandro Gomes de Barros e Sérgio de Castro Pinto (para citarmos apenas três), se sobressaíram em suas gerações, dentro de uma tradição estética inovadora, alcançando vôos sublimes no manejo da linguagem.

Na atualidade, a poesia paraibana se mantém firme e continua neste propósito (seja através de modelos tradicionais ou inovadores de composição), com amostras dinâmicas e significativas de expressividade, que recaem num painel de temas e linguagens dos mais variados, numa consonância eminente com a produção poética brasileira contemporânea.

No entanto, dentro deste quadro de diversidade, é necessário salientarmos no campo poético local quais vozes ecoam de maneira diferenciada, explorando fórmulas e sentidos distintos de elaboração poética. Tal propósito formula ideários “de evolução da linguagem” no estado da Paraíba, percebendo os (des)equilíbrios presentes na formatação de nomes e obras.

Neste quadro de vozes distintas o nome do poeta Joedson Adriano está presente. Natural de Bayuex, Paraíba, o autor publicou sua primeira obra no gênero poético, intitulada Ode aos Deuses (João Pessoa, Edição do Autor, 2009). Desta maneira, o propósito deste ensaio será salientar as principais características da poesia do autor através da referida obra.

O livro chama atenção inicialmente por não possuir uma edição dentro das regras editoriais comuns de mercado, não havendo na capa o nome do autor, nem a numeração das páginas. A proposta editorial recai sobre um formato independente, salientando um propósito transgressivo na própria materialidade do artefato impresso.

Quanto à formatividade que o autor empreende dentro das estratégicas lingüísticas, sejam elas na apropriação de recursos do campo sonoro (musicalidade, assonância, dissonância interna) ou recursos do campo visual (fragmentação vocabular, diagramação, paginação), Joedson Adriano recai num “jogo narrativo” no qual a dessacralização é o elemento mais eminente, com um subjetivismo que adentra em versos (des)contínuos e fortes.

O autor salienta: “Eu sou o profeta prático sem pátria e sem fé” e canta seu ateísmo de maneira densa ao proclamar: “dos meus atrevidos alvos e apócrifos trovões”. Joedson procura elementos internos, desconstruindo para si, as referências religiosas que carrega, cantando absorto, a sua maneira impar de impor signos de transgressão. Em sua construção formal “palavra puxa palavra” e “ideia puxa ideia”, em termos que caracterizo como condutores de sentidos internos. Vejamos este trecho do poema-livro: “senão nas hostis hostes das hóstias consagradas/ que o diminuto dom dos doidos indomáveis”. É perceptível que o “h” e o “d” dão os tons sonoros ao poema, cadenciando os versos numa maneira infreqüente e musical. Seu estilo eu poderia chamar de um Épico Pós-moderno, pois o autor se apropria de elementos clássicos de uma poética tradicional, todavia com marcas profundas de terminologias e concepções estilísticas contemporâneas, o que o coloca num lugar especial dentro da produção poética paraibana contemporânea.

A carga simbólica que carrega o autor recai numa busca pela liberdade e por um profetismo exacerbado, no qual a marca é a busca por “reino dos livres espíritos”, longe das “caducas mentiras” que as religiões proclamam: “que me livre com leis dos livros marginais/ que não existe deus ou demônio domador”. Seu cântico de contestação e rebeldia, no qual a fé é pensada como uma verdadeira doença, traz um outro elemento temático que é a busca pelo prazer liberto, da vontade de poder, longe das amarras mentais que a religião oferece. Vejamos este verso no qual a ironia e a transgressão estão presentes: “eu mesmo não quero a graça e sim gozar nas graças”.

Joedson Adriano, no livro: Ode aos Deuses empreende também uma forte metapoesia, consciente e severa, no qual muitas vezes o autor dialoga com si mesmo “pelos meus versos vindos de versos anteriores/ e fazedouros verazes de mais versos vindouros”. Sua concepção estilística também fica evidente quando afirma: “a poesia é piração e pretensiosa cura/ cerebral acupuntura pro artista ateu.”

Critica contundente a opressão das religiões, dessacralização, metapoesia, estes são alguns dos elementos que conseguimos formular diante da leitura do Ode aos Deuses. Um livro difícil de ler, dentro de uma estrutura “pesada” e uma formatividade “agressiva”, carregando um estilo fora dos padrões normativos da contemporaneidade. Todavia, com uma opção estética inovadora.

Origem: Publicado originalmente no Livro “Coletânea Outros Olhares da Literatura Paraibana” (Sebo Cultural), em 2011.

Livro: ADRIANO, Joedson. Ode aos Deuses. João Pessoa: Edição do autor, 2009.





O REINVENTOR DO NORDESTE

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

O Nordeste é rico em autores, artistas e intelectuais que escreveram suas obras a partir de alusões a sua própria região. Nomes como Gilberto Freyre, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, Luiz Gonzaga, Glauber Rocha (só para citarmos alguns das mais diversas áreas e linguagens), desenvolveram, muitas vezes, suas concepções sociais, históricas e estéticas dentro de um universo de imagens e discursos que privilegiaram idéias e valores marcados por estereótipos a acerca do Nordeste, a exemplo da Seca, do Messianismo, do Cangaço, da Miséria, etc. O mesmo pode ser identificado com recorrência na mídia brasileira, que privilegia estas mesmas imagens clichês e preconceituosas.

Tais representações sobre o Nordeste brasileiro são fruto de uma pseudo-unidade cultural, geográfica e étnica, no qual a região foi recortada por um campo de estudos e produções culturais, a exemplo da literatura (sobretudo a Regionalista), as artes plásticas, a música, o cinema, a produção acadêmica (em especial as ciências sociais e a historiografia), como também por estratégias políticas e institucionais. Neste sentido, a região foi tomada como uma invenção, pela repetição regular do caráter do Nordeste e de seu povo.

Todas estas reflexões fazem parte do livro A Invenção do Nordeste e outras Artes, do historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque Jr., publicado em 1999, através da Fundação Joaquim Nabuco e da Editora Cortez. A obra, que já está em sua quinta edição, foi vencedora do Prêmio Nelson Chaves de teses sobre o Norte e o Nordeste brasileiros em 1996, sendo fruto do doutoramento do autor em história pela Universidade de Campinas (UNICAMP), apresentado em 1994, com o título de “O Engenho Antimoderno: a invenção do Nordeste e outras artes”.

O historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 22 de junho de 1961, todavia atualmente reside na cidade de Natal onde é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sua experiência na área de História recai no campo da Teoria e Filosofia da História, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, nordeste, masculinidade, identidade, cultura, biografia histórica e produção de subjetividade. Faz, neste momento, estágio de pós-doutorado junto a Universidade de Coimbra, em Portugal. Até o ano passado foi Presidente da ANPUH (Associação Nacional de História), principal órgão representativo dos historiadores no país.

Uma das hipóteses centrais do livro A Invenção do Nordeste e outras Artes é que o Nordeste é uma invenção recente na história brasileira, mas precisamente uma idéia firmada nas primeiras décadas do século XX, sendo gestada no cruzamento do que Durval Muniz de Albuquerque Jr. chama de “práticas regionalizantes”, sejam elas por interesses políticos ou culturais.

A obra analisa brilhantemente diversas fontes e linguagens, compreendendo os caminhos pelos quais se produziu o Nordeste, no âmbito da cultura brasileira. Neste sentido, o discurso acadêmico, jornalístico, político, literário, fílmico, teatral, musical, que constituíram como objeto de conhecimento sobre o Nordeste, foi sendo analisado como “produtoras de realidade” e, portanto, responsáveis pela maneira como compreendemos a região até os dias atuais.

O livro em questão já é um clássico da historiografia brasileira contemporânea. Constituído a partir de conceitos e pressupostos do pós-estruturalismo, em especial a partir dos autores Michel Foucault e Gilles Deleuze, a obra vem servindo como uma espécie de “manifesto” a visão muitas vezes limitada sobre o Nordeste, servida de preconceitos e desinformações sobre a região.

Repensando a nossa identidade enquanto nordestino, Durval Muniz de Albuquerque Jr. conseguiu questionar a maneira “folclórica” em que nos colocamos. Fugindo dos lugares comuns, da qual a cultura nordestina é engessada, o livro A Invenção do Nordeste e outras Artes ainda carece de uma maior penetração para um público maior, fugindo das limitadas paredes da academia.

Ao pensar o Nordeste por dentro, através das condições que a possibilitaram, Durval Muniz de Albuquerque Jr. optou por passear pelas entranhas e amarras de uma região que sofre pelas limitadas visões impostas pela mídia e pela crítica cultural brasileira, e mais, questiona a nossa própria postura em afirmar e reafirmar a concepção folclórica e regionalista do qual nós insistimos em perceber como homogênea e unitária. Exemplo é justamente o período junino, quando a “paisagem urbana” das grandes cidades nordestinas é maquiada por uma falsa concepção rural.

O projeto intelectual do historiador paraibano passa pelo questionamento das identidades regionais, e que podem ser encontradas não só no livro A Invenção do Nordeste e outras Artes, mas também em outros estudos igualmente significativos, a exemplo dos livros: Nordestino: Uma invenção do falo (uma história do gênero masculino – Nordeste 1920/1940), publicado em 2003 e Preconceito contra a origem geográfica e de lugar – As fronteiras da discórdia, lançado em 2007. Neste sentido, percebo a importância fundamental do pensamento de Durval Muniz de Albuquerque Jr. na atualidade, como “reinventor” da maneira de pensar a região Nordeste.

Origem: Publicado no Jornal Contraponto e no Blog Caixa Baixa em 2012.

Livro: ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de . A Invenção do Nordeste e outras Artes. São Paulo: Cortez, 1999.





MÁXIMAS EM MÍNIMAS

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

Um micro-conto tem uma dimensão aforística ímpar. Audaciosa em sua estrutura sintética pretende em poucas frases e palavras expressar uma situação limite. Algo parecido como o que o poeta Mário Quintana afirmou ao definir o que seria a poesia: “(…) a poesia nada mais é/ que um soco/ na alma do leitor”.

Eu diria que um bom micro-conto deve ter uma definição próxima da afirmação do mestre gaúcho. O impacto que uma narrativa mínima, como é o caso de um micro-conto, deve ocasionar tem como máxima o possível incômodo causado nos seus leitores, – não importando a forma, se lúdica, reflexiva ou enigmática.

Acredito que o escritor Janaílson Macêdo conseguiu, nesta sua primeira coletânea de micro-contos, incomodar (no bom sentido da palavra), causando impactos das mais diferentes maneiras, dentro dos limites que o próprio gênero impõe.  Intitulada Microf(r)icções, a pequena obra, composta por 60 narrativas curtas, expõe situações comuns atreladas a relatos históricos, de maneira segura e objetiva, sem deixar de lado o encanto da descoberta poética impulsionada pelas circunstâncias.

Ás vezes enigmática, outras vezes lúdica ou humorística, ou até mesmo banal em determinados casos, – os textos deste livro seguem um caminho acautelado em que o cotidiano, os acontecimentos históricos e o “metaconto” (ou metanarrativa), se encontram.

Um cotidiano demarcado por situações que envolvem muitas vezes os temas das relações interpessoais, a sexualidade e a morte. Acontecimentos históricos, que perpassam situações referidas à Segunda Guerra Mundial, as questões indígenas, as Cruzadas, entre outros. “Metacontos”, quando o autor reflete o próprio ato narrativo compondo situações ficcionais sobre a prática de escritor ou se referido a autores ou obras de sua predileção.

Aliás, este último aspecto é o ponto máximo de todo o livro. Exemplo é o genial micro-conto em homenagem ao escritor russo Dostoiévski “Encarcerado até o fim dos tempos em seu próprio universo, Dostoievski manda cartas imaginárias para si mesmo e descobre, lendo e relendo cada uma delas, que só existe um lugar para a liberdade: a ficção”.

Liberdade esta que o próprio escritor Janaílson Macêdo conseguiu produzir, exercitando de maneira adequada e abalizada nestes micro-contos, as maneiras próprias relacionadas aos limites das rupturas inerentes a existência humana- em narrativas máximas em formato mínimo.

Origem: Prefácio do livro, lançado em 2012.

Livro: LUIZ, Janaílson Macêdo. Microf(r)icções. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012.





O REVESSO DAS COISAS

29 11 2012

 

 

Por Bruno Gaudêncio

De acordo com Edgar Allan Poe um bom conto é a revelação de um acontecimento extraordinário e seu ponto principal é o desfecho, o final, que precisa ser surpreendente.  No caso dos contos que constituem a coletânea “Do avesso” (Com-Arte, 2010), do escritor é psicólogo paulistano Roberto Tardivo, o extraordinário e o surpreendente se fazem presentes em toda a urdidura das ficções, a começar pelos próprios títulos de algumas das narrativas, a exemplo de A Mãe do Filho e os contos complementares Graça e Desgraça.

A palavra “reviravolta” talvez seja a principal nomenclatura existente na gramática ficcional destes 19 narrativas sintéticas, nos quais os personagens invertem-se em seus papéis de protagonistas, em ações cheias de indeterminações. É o caso do conto Desembarque, no qual o leitor fica a se perguntar quem seria o personagem Marcos Nobre? Um impostor, oportunista? O verdadeiro em uma infinita crise de identidade? Camadas de sentidos vão sendo colocados pelo autor, em frases lapidares, – ações voltadas pelo lado interno dos personagens, o que causa um encantador revesso das coisas…

No primeiro conto da coletânea, intitulado Queda Livre, o fator surpresa (demarcado por reviravoltas constantes), pode ser considerado como exemplo mais evidente do brilhantismo do contista, no qual o personagem ao narrar sua trajetória de “ascensões e quedas”, são expostos de maneira ímpar, num desfecho que nos deixa verdadeiramente encantados: “E fui dar nesse breu em que não se sabe direito quem é quem. Em que não há chão. Onde as palavras voam, à procura de si mesmas, para aterrar em areia movediça. Eu crio pessoas” (p.13). No parágrafo seguinte Renato Tardivo arremata: “Enfim escritor, eu sigo a forjar vida – a minha e a dos outros” (idem).

Em sua tarefa de “forjador de vidas” e de “mundos interiores”, cheios de dúvidas e mistérios, há um “poder de condensação” que muito bem formulado, faz de Renato Tardivo um estilista na arte do conto, mesmo sendo Do Avesso um livro uma estreia. Não é toa que João Anzanello Carrascoza, também exímio contista, chega a afirmar na apresentação da obra (contida na orelha do livro) que o autor se destaca pelo timbre, pela colocação, pelo vigor.

Além do brilhantismo dos contos, em que “enigmas” e “fantasias” se complementam em unidades de efeitos complexos, o leitor não deixar de perceber também as belas gravuras de Adriana Bento (ilustradora), que estão envoltas das ficções, e que expressam muito bem o lado surpreendente dos contos, do início ao fim. Eis um grande contista que a literatura brasileira ganha neste início de século.

Origem: Publicado no Jornal Contraponto e no Blog Caixa Baixa em 2011.

Livro: TARDIVO, Renato. Do avesso. São Paulo: Com-arte, 2010.





Nasce a Terceira Margem do Livro!

28 11 2012

Bem vindo ao  “A Terceira Margem do Livro”, blog de resenhas literárias de autores contemporâneas, editado pelo escritor, jornalista e historiador Bruno Gaudêncio.