O EU E O NÓS NA POÉTICA DE CARLOS ARANHA

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

“Eu já era /poeta solitário/ fazendo artigos/ como se fossem/ discos, filmes, canções/”.

O trecho do poema “Veja” contido na obra inaugural “Nós an Insight” (Linha d’água, 2011) de Carlos Aranha é revelador em diversos aspectos. Conhecido em todo o estado da Paraíba por sua militância artística, principalmente no jornalismo cultural, Carlos Aranha demorou décadas para publicar o seu primeiro livro. Esta ausência criou uma imensa expectativa por parte dos seus leitores diários e artistas que vem observando desde a década de 1960, sua atuação na produção de peças, discos e filmes, entre outras linguagens.

Carlos Aranha é um destes nomes que ainda mobilizam o cenário cultural da Paraíba na atualidade (em especial de João Pessoa). Suas opiniões criam certas concordâncias e rejeições e são avaliados sempre como posicionamentos coerentes, atuais e firmes. Aliás, como sua própria poesia e personalidade. Filho das vanguardas estéticas brasileiras, como o Tropicalismo e o Cinema Novo, Aranha vivenciou particularmente os movimentos culturais em seu estado, incorporando atitudes, discursos e imagens, que levaram a compor o seu repertório poemático.

“Nós an Insight” caracteriza-se pelo impulso poético do seu autor. Numa percepção “motora do instante”, Carlos Aranha deflagra uma hermenêutica própria de sua geração, marcada pela herança errante das vanguardas, em especial a tradição tropicalista (da qual Caetano Velloso se mostra como um guru inspiratório). Mas não é só isso quando se fala em inspiração ou diálogo emotivo e cultural, percebe-se claramente um “intercâmbio atemporal” com a poesia de Augusto dos Anjos.

A alusão dicotômica “O Eu / O Nós” é a espinha dorsal da gramática estética que nos apresenta Carlos Aranha. O “Eu de Augusto” absorve então os outros, numa poética sofisticada e madura, da qual referências “pop’s e cult’s” vão sendo apresentadas. Cada verso surpreende vindo como um signo rompido, alucinante, numa obra aberta (no dizer de Umberto Eco). Exemplo máximo da relação “O Eu/O Nós” que podemos trazer de início é o poema “Nós”, que abre o livro:

“Assumo o ser que somos nós

Deus é ser de tom tamanho

Que seu silencio é som da nossa voz”

(p.17)

Outro dado importante na poesia de Carlos Aranha é o lado crítico, nunca contemplativo da realidade. A cidade de João Pessoa, as amizades culturais, os filmes, as referências estéticas, – nada passa sem um olhar avaliador, elucidativo, às vezes quase prosaico, como no poema “Yesterday’s apocalyse”, onde sobram críticas ao formalismo e a hiperinterpretação por parte da crítica literária contemporânea.

Marca presente na poesia de Carlos Aranha é a “implosão das identidades”, onde os lugares, as culturas e as pessoas, numa maquinaria múltipla de referências, se dispersa, sem conexões aparentes.  Tudo numa interligação de artistas, filmes, peças, num culto a “diversidade do mundo”, presente especialmente no poema “Pra que Tant’identidade”:

“A diversidade canta em seus versos

Porque a poesia

Quando se conflita

É mais que o vão vôo da vida”.(p.25)

 Nesta incursão identitária, cabem poemas em inglês, memórias da repressão, cânticos de amor a cidade de João Pessoa, diálogos com artistas amigos como o escritor José Nêumanne Pinto e a compositora Cátia de França, a afetividade sexual na presença festiva dos corpos. A universalidade artística em diálogo constante com a localidade cultural: “Meu espírito paira/ entre Nova York e Cruz das Armas” (p.80)

Todavia, acredito que, de todos os poemas, aquele que representa mais o universo poético de Carlos Aranha neste seu primeiro livro, é “About me”. Demarcado por uma memória afetiva, o autor se despe num jogo de revelações pessoais, em que os lugares, os endereços de sua subjetividade ficam mais nítidos e lúcidos diante das incertezas do passado, do presente e do futuro.

Mesmo tendo um traço prosaico, que muitas vezes se afasta da poesia, Carlos Aranha estreou bem, num livro forte e ousado, cheio de instantes marcantes. “Nós an Insight” é uma obra viva e reveladora, advinda de um poeta que não cabe dentro de si mesmo, que transcende as suas referencias estéticas, os lugares e as culturas, numa corrida louca e interna entre o Eu e o Nós de cada dia.

Livro: ARANHA, Carlos. Nós an Insight. João Pessoa: Linha d’água, 2011.

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