UM CÂNTICO DESSACRALIZADO

29 11 2012


 Por Bruno Gaudêncio

A Paraíba é reconhecida nacionalmente como um estado brasileiro de bons poetas. Nomes como Augusto dos Anjos, Leandro Gomes de Barros e Sérgio de Castro Pinto (para citarmos apenas três), se sobressaíram em suas gerações, dentro de uma tradição estética inovadora, alcançando vôos sublimes no manejo da linguagem.

Na atualidade, a poesia paraibana se mantém firme e continua neste propósito (seja através de modelos tradicionais ou inovadores de composição), com amostras dinâmicas e significativas de expressividade, que recaem num painel de temas e linguagens dos mais variados, numa consonância eminente com a produção poética brasileira contemporânea.

No entanto, dentro deste quadro de diversidade, é necessário salientarmos no campo poético local quais vozes ecoam de maneira diferenciada, explorando fórmulas e sentidos distintos de elaboração poética. Tal propósito formula ideários “de evolução da linguagem” no estado da Paraíba, percebendo os (des)equilíbrios presentes na formatação de nomes e obras.

Neste quadro de vozes distintas o nome do poeta Joedson Adriano está presente. Natural de Bayuex, Paraíba, o autor publicou sua primeira obra no gênero poético, intitulada Ode aos Deuses (João Pessoa, Edição do Autor, 2009). Desta maneira, o propósito deste ensaio será salientar as principais características da poesia do autor através da referida obra.

O livro chama atenção inicialmente por não possuir uma edição dentro das regras editoriais comuns de mercado, não havendo na capa o nome do autor, nem a numeração das páginas. A proposta editorial recai sobre um formato independente, salientando um propósito transgressivo na própria materialidade do artefato impresso.

Quanto à formatividade que o autor empreende dentro das estratégicas lingüísticas, sejam elas na apropriação de recursos do campo sonoro (musicalidade, assonância, dissonância interna) ou recursos do campo visual (fragmentação vocabular, diagramação, paginação), Joedson Adriano recai num “jogo narrativo” no qual a dessacralização é o elemento mais eminente, com um subjetivismo que adentra em versos (des)contínuos e fortes.

O autor salienta: “Eu sou o profeta prático sem pátria e sem fé” e canta seu ateísmo de maneira densa ao proclamar: “dos meus atrevidos alvos e apócrifos trovões”. Joedson procura elementos internos, desconstruindo para si, as referências religiosas que carrega, cantando absorto, a sua maneira impar de impor signos de transgressão. Em sua construção formal “palavra puxa palavra” e “ideia puxa ideia”, em termos que caracterizo como condutores de sentidos internos. Vejamos este trecho do poema-livro: “senão nas hostis hostes das hóstias consagradas/ que o diminuto dom dos doidos indomáveis”. É perceptível que o “h” e o “d” dão os tons sonoros ao poema, cadenciando os versos numa maneira infreqüente e musical. Seu estilo eu poderia chamar de um Épico Pós-moderno, pois o autor se apropria de elementos clássicos de uma poética tradicional, todavia com marcas profundas de terminologias e concepções estilísticas contemporâneas, o que o coloca num lugar especial dentro da produção poética paraibana contemporânea.

A carga simbólica que carrega o autor recai numa busca pela liberdade e por um profetismo exacerbado, no qual a marca é a busca por “reino dos livres espíritos”, longe das “caducas mentiras” que as religiões proclamam: “que me livre com leis dos livros marginais/ que não existe deus ou demônio domador”. Seu cântico de contestação e rebeldia, no qual a fé é pensada como uma verdadeira doença, traz um outro elemento temático que é a busca pelo prazer liberto, da vontade de poder, longe das amarras mentais que a religião oferece. Vejamos este verso no qual a ironia e a transgressão estão presentes: “eu mesmo não quero a graça e sim gozar nas graças”.

Joedson Adriano, no livro: Ode aos Deuses empreende também uma forte metapoesia, consciente e severa, no qual muitas vezes o autor dialoga com si mesmo “pelos meus versos vindos de versos anteriores/ e fazedouros verazes de mais versos vindouros”. Sua concepção estilística também fica evidente quando afirma: “a poesia é piração e pretensiosa cura/ cerebral acupuntura pro artista ateu.”

Critica contundente a opressão das religiões, dessacralização, metapoesia, estes são alguns dos elementos que conseguimos formular diante da leitura do Ode aos Deuses. Um livro difícil de ler, dentro de uma estrutura “pesada” e uma formatividade “agressiva”, carregando um estilo fora dos padrões normativos da contemporaneidade. Todavia, com uma opção estética inovadora.

Origem: Publicado originalmente no Livro “Coletânea Outros Olhares da Literatura Paraibana” (Sebo Cultural), em 2011.

Livro: ADRIANO, Joedson. Ode aos Deuses. João Pessoa: Edição do autor, 2009.

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