OS ACROBATAS DA LINGUAGEM

25 08 2013

Acrobata revista

Por Bruno Gaudêncio

Vivemos um bom momento quanto à circulação de revistas culturais no Brasil. O mundo virtual das redes sociais e dos sites e blogs independentes expressam bem à diversidade como marca maior deste novo contexto. Com a internet multiplicaram-se as experiências e os diálogos entre editores, autores e leitores. Por outro lado não devemos esquecer que as revistas culturais de variedades em formato impresso no país estão morrendo pouco a pouco, a exemplo da Bravo, que recentemente deixou de circular de forma definitiva.

Entretanto, mesmo sendo um ato de resistência, algumas revistas culturais vem surgindo de forma impressa e ao mesmo tempo virtual no Brasil, mostrando o valor e a importância deste suporte no que se refere à divulgação, a produção e a reflexão da cultura, em especial da literatura brasileira contemporânea. Exemplo é a Revista Acrobata, advindo da cidade de Teresina, Piauí e editada pelos escritores Aristides Oliveira, Demétrios Galvão, Meire Fernandes e Thiago E.

A Revista segue uma linha de publicações de literatura, audiovisual “e outros desequilíbrios” (no dizer dos próprios editores), que de forma marcante já no editorial do seu primeiro número (lançado em junho de 2013), explica o nome dado ao periódico, bem como o seu objetivo maior “Acrobata: metáfora que mobiliza linguagens – ação que inventa mundos. Articular pessoas e fazeres, movimentos e afetos, ideias e geografias, desfolhar bandeiras e atravessar-cortar-perfurar-possibilitar-vazar as barreiras da insensatez”. Portanto, a Revista Acrobata se coloca como uma alternativa atual no que se refere à publicação de textos que exaltam de maneira independente e articuladora a reflexão sobre o campo artístico-cultural no país.

O número de estréia da revista Acrobata traz a marca da diversidade, porém privilegiam três tipologias de publicações: poemas, ensaios sobre literatura e ensaios sobre o audiovisual. Destaque para os poemas dos paulistanos Augusto de Campos e Ademir Assunção, que desfilam juntamente com os do maranhense Salgado Maranhão e a africana Conceição Lima (natural de São Tomé e Príncipe), além de produções de valores locais que vem se destacando, como a potiguar Sinhá e o piauiense Rodrigo M Leite. Ainda no campo literário podemos citar o conto de Marcelino Freire, única ficção nas páginas do periódico.

Numa montagem bem equilibrada, de textos e imagens, a revista se direciona para uma poesia quase sempre inventiva, de herança surrealista, concretista ou beat, assim como um cinema de arte com feições sofisticadas, como nos enfoques sobre o cinema indígena, em texto de Charles Bicalho e as reflexões sobre o cinema de Godard, por Nayhd Barros.  Sem contar a preocupação da Acrobata em compreender através de panoramas ou relatos de memórias, o contexto cultural do país ou de Teresina, como nos casos dos esclarecedores textos “Revistas Literárias no Brasil”, do poeta e editor Edson Cruz e “O Cenário da Poesia em Teresina”, de Wanderson Lima.

Entre os pontos altos da publicação, não há como deixar de destacar a ótima e longa entrevista realizada com o poeta e editor Sérgio Cohn, no qual houve um aprofundamento da compreensão das ações deste dedicado articulador cultural, – responsável por importantes projetos editoriais no Brasil, que a frente da Azougue  lançou recentemente, por exemplo, a caixa Poesia.br, – um importante panorama da história da poesia brasileira.

Desta forma, como um bom acrobata, a Revista Literária piauiense estreia em grande estilo, com um desempenho raro de destreza cultural para um primeiro número, demarcando em suas páginas uma visível sofisticação, independência e labor visual. Os editores se utilizaram muito bem dos pêndulos e trapézios, dialogando com o Brasil e o mundo. O Acrobata nasceu impresso, mas logo mais ficará disponível para os todos os leitores em formato virtual, revelando nestes dois suportes que na terra de Torquato Neto e Mário Faustino, se faz sim o melhor da poesia inventiva nordestina, em sintonia com o todo o universo da linguagem.

Revista: Acrobata, Nº 1, Teresina: Junho de 2013.





O REVESSO DAS COISAS

29 11 2012

 

 

Por Bruno Gaudêncio

De acordo com Edgar Allan Poe um bom conto é a revelação de um acontecimento extraordinário e seu ponto principal é o desfecho, o final, que precisa ser surpreendente.  No caso dos contos que constituem a coletânea “Do avesso” (Com-Arte, 2010), do escritor é psicólogo paulistano Roberto Tardivo, o extraordinário e o surpreendente se fazem presentes em toda a urdidura das ficções, a começar pelos próprios títulos de algumas das narrativas, a exemplo de A Mãe do Filho e os contos complementares Graça e Desgraça.

A palavra “reviravolta” talvez seja a principal nomenclatura existente na gramática ficcional destes 19 narrativas sintéticas, nos quais os personagens invertem-se em seus papéis de protagonistas, em ações cheias de indeterminações. É o caso do conto Desembarque, no qual o leitor fica a se perguntar quem seria o personagem Marcos Nobre? Um impostor, oportunista? O verdadeiro em uma infinita crise de identidade? Camadas de sentidos vão sendo colocados pelo autor, em frases lapidares, – ações voltadas pelo lado interno dos personagens, o que causa um encantador revesso das coisas…

No primeiro conto da coletânea, intitulado Queda Livre, o fator surpresa (demarcado por reviravoltas constantes), pode ser considerado como exemplo mais evidente do brilhantismo do contista, no qual o personagem ao narrar sua trajetória de “ascensões e quedas”, são expostos de maneira ímpar, num desfecho que nos deixa verdadeiramente encantados: “E fui dar nesse breu em que não se sabe direito quem é quem. Em que não há chão. Onde as palavras voam, à procura de si mesmas, para aterrar em areia movediça. Eu crio pessoas” (p.13). No parágrafo seguinte Renato Tardivo arremata: “Enfim escritor, eu sigo a forjar vida – a minha e a dos outros” (idem).

Em sua tarefa de “forjador de vidas” e de “mundos interiores”, cheios de dúvidas e mistérios, há um “poder de condensação” que muito bem formulado, faz de Renato Tardivo um estilista na arte do conto, mesmo sendo Do Avesso um livro uma estreia. Não é toa que João Anzanello Carrascoza, também exímio contista, chega a afirmar na apresentação da obra (contida na orelha do livro) que o autor se destaca pelo timbre, pela colocação, pelo vigor.

Além do brilhantismo dos contos, em que “enigmas” e “fantasias” se complementam em unidades de efeitos complexos, o leitor não deixar de perceber também as belas gravuras de Adriana Bento (ilustradora), que estão envoltas das ficções, e que expressam muito bem o lado surpreendente dos contos, do início ao fim. Eis um grande contista que a literatura brasileira ganha neste início de século.

Origem: Publicado no Jornal Contraponto e no Blog Caixa Baixa em 2011.

Livro: TARDIVO, Renato. Do avesso. São Paulo: Com-arte, 2010.