MÁXIMAS EM MÍNIMAS

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

Um micro-conto tem uma dimensão aforística ímpar. Audaciosa em sua estrutura sintética pretende em poucas frases e palavras expressar uma situação limite. Algo parecido como o que o poeta Mário Quintana afirmou ao definir o que seria a poesia: “(…) a poesia nada mais é/ que um soco/ na alma do leitor”.

Eu diria que um bom micro-conto deve ter uma definição próxima da afirmação do mestre gaúcho. O impacto que uma narrativa mínima, como é o caso de um micro-conto, deve ocasionar tem como máxima o possível incômodo causado nos seus leitores, – não importando a forma, se lúdica, reflexiva ou enigmática.

Acredito que o escritor Janaílson Macêdo conseguiu, nesta sua primeira coletânea de micro-contos, incomodar (no bom sentido da palavra), causando impactos das mais diferentes maneiras, dentro dos limites que o próprio gênero impõe.  Intitulada Microf(r)icções, a pequena obra, composta por 60 narrativas curtas, expõe situações comuns atreladas a relatos históricos, de maneira segura e objetiva, sem deixar de lado o encanto da descoberta poética impulsionada pelas circunstâncias.

Ás vezes enigmática, outras vezes lúdica ou humorística, ou até mesmo banal em determinados casos, – os textos deste livro seguem um caminho acautelado em que o cotidiano, os acontecimentos históricos e o “metaconto” (ou metanarrativa), se encontram.

Um cotidiano demarcado por situações que envolvem muitas vezes os temas das relações interpessoais, a sexualidade e a morte. Acontecimentos históricos, que perpassam situações referidas à Segunda Guerra Mundial, as questões indígenas, as Cruzadas, entre outros. “Metacontos”, quando o autor reflete o próprio ato narrativo compondo situações ficcionais sobre a prática de escritor ou se referido a autores ou obras de sua predileção.

Aliás, este último aspecto é o ponto máximo de todo o livro. Exemplo é o genial micro-conto em homenagem ao escritor russo Dostoiévski “Encarcerado até o fim dos tempos em seu próprio universo, Dostoievski manda cartas imaginárias para si mesmo e descobre, lendo e relendo cada uma delas, que só existe um lugar para a liberdade: a ficção”.

Liberdade esta que o próprio escritor Janaílson Macêdo conseguiu produzir, exercitando de maneira adequada e abalizada nestes micro-contos, as maneiras próprias relacionadas aos limites das rupturas inerentes a existência humana- em narrativas máximas em formato mínimo.

Origem: Prefácio do livro, lançado em 2012.

Livro: LUIZ, Janaílson Macêdo. Microf(r)icções. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012.