A ARTE DA PEDRA É SER O SILÊNCIO QUE CRESCE

1 07 2013

capa pedra.inddPor Bruno Gaudêncio

José Inácio Vieira de Melo atualmente é um dos principais nomes da poesia brasileira contemporânea. Alagoano, mas radicado na Bahia, sua lírica vem encantando e conquistando cada vez mais o destaque merecido no cenário nacional. Uma poesia de forte teor telúrico onde os elementos do sertão são montados e decantados numa dimensão universal e muitas vezes épica.

Pedra só (Escrituras, 2012) é o exemplo claro desta concepção estilística.  José Inácio Vieira de Melo constrói “pedra por pedra a sua solidão”, num silêncio acompanhado por referências estéticas e dialógicas que vão desde Gerardo Mello Mourão, passando por Herberto Helder e Cecília Meireles, chegando aos cantadores e vaqueiros do sertão nordestino, numa toada densa produzida a partir de uma maquinaria refinada e sonora: “Minhas mãos trabalham na imensidão. Longa batalha em busca da beleza”, diz o poeta no poema Aurora.

O livro começa com um poema longo, que dá nome a obra: Pedra Só. Depois sua lírica vai se mostrando em outras sessões intituladas Aboio Livre, Toada do Tempo, Partituras, Parábolas, o que dão o calibre musical de um alento cavalgado no ritmo dos sertões. Não é toa que a Fazenda “Pedra Só” é o fio condutor, matéria e a espinha dorsal de toda a obra. O nome poético da fazenda, da pedra solitária, onde dia a dia o seu ofício é refinado, amolado, curtido, implodido, em toda uma cartografia lírica.

Neste eixo poético elementos da atmosfera sertaneja (como cavalos, algarrobas, poeira, éguas, entre outros) ganham uma dimensão antológica e universal. Amparado em figuras da antiguidade clássica, ou do mundo bíblico, José Inácio Vieira de Melo recria um sertão mítico de palavras e sons, que possui o seu próprio evangelho, numa lira onde a infância, a memória, a sexualidade se unem na tessitura de “um cavaleiro onde fogo ganha dezenas de significados”:

Eu regresso e lembro que fui, que sou e serei

Um cavaleiro cozido nas brasas do Sertão,

Dentro dos couros, com o sol no espinhaço,

No meio do tempo, no meio dos tempos.

 

Nesta missão no meio do tempo e da memória, personagens bíblicos e mitológicos dialogam, numa poesia liricamente demarcada pelo “épico da terra”, mas com garras firmes na universalidade ocidental, onde Teceu, Ulisses, Narciso, Davi e Homero se fazem presentes como personagens, assim como seus vaqueiros e animais, de ontem e de hoje, de sua lembrança e afetividade. Há espaços ainda para belas homenagens em sua Pedra Só, como a Leonardo da Vinci, a cidade de Ouro Preto, a poeta Mariana Ianelli e os seus filhos Carlos Moisés e Gabriel Inácio.

Na poesia de José Inácio Vieira de Melo o domínio da linguagem é uma das suas principais marcas. Seu simbolismo reescreve a si mesmo no “útero da casa”, no chão de todas as coisas, onde as agarrobas passeiam pela infância e a memória dança numa epifania do corpo e da declamação. Pedra Só, assim se apresenta como abrigo e santuário, como rubrica e transgressão, numa poesia marcante e nobre.

Origem: Publicado  no Site Zona da Palavra.

Livro: VIEIRA DE MELO, José Inácio. Pedra Só. São Paulo: Escrituras, 2012.

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O REINVENTOR DO NORDESTE

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

O Nordeste é rico em autores, artistas e intelectuais que escreveram suas obras a partir de alusões a sua própria região. Nomes como Gilberto Freyre, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, Luiz Gonzaga, Glauber Rocha (só para citarmos alguns das mais diversas áreas e linguagens), desenvolveram, muitas vezes, suas concepções sociais, históricas e estéticas dentro de um universo de imagens e discursos que privilegiaram idéias e valores marcados por estereótipos a acerca do Nordeste, a exemplo da Seca, do Messianismo, do Cangaço, da Miséria, etc. O mesmo pode ser identificado com recorrência na mídia brasileira, que privilegia estas mesmas imagens clichês e preconceituosas.

Tais representações sobre o Nordeste brasileiro são fruto de uma pseudo-unidade cultural, geográfica e étnica, no qual a região foi recortada por um campo de estudos e produções culturais, a exemplo da literatura (sobretudo a Regionalista), as artes plásticas, a música, o cinema, a produção acadêmica (em especial as ciências sociais e a historiografia), como também por estratégias políticas e institucionais. Neste sentido, a região foi tomada como uma invenção, pela repetição regular do caráter do Nordeste e de seu povo.

Todas estas reflexões fazem parte do livro A Invenção do Nordeste e outras Artes, do historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque Jr., publicado em 1999, através da Fundação Joaquim Nabuco e da Editora Cortez. A obra, que já está em sua quinta edição, foi vencedora do Prêmio Nelson Chaves de teses sobre o Norte e o Nordeste brasileiros em 1996, sendo fruto do doutoramento do autor em história pela Universidade de Campinas (UNICAMP), apresentado em 1994, com o título de “O Engenho Antimoderno: a invenção do Nordeste e outras artes”.

O historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 22 de junho de 1961, todavia atualmente reside na cidade de Natal onde é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sua experiência na área de História recai no campo da Teoria e Filosofia da História, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, nordeste, masculinidade, identidade, cultura, biografia histórica e produção de subjetividade. Faz, neste momento, estágio de pós-doutorado junto a Universidade de Coimbra, em Portugal. Até o ano passado foi Presidente da ANPUH (Associação Nacional de História), principal órgão representativo dos historiadores no país.

Uma das hipóteses centrais do livro A Invenção do Nordeste e outras Artes é que o Nordeste é uma invenção recente na história brasileira, mas precisamente uma idéia firmada nas primeiras décadas do século XX, sendo gestada no cruzamento do que Durval Muniz de Albuquerque Jr. chama de “práticas regionalizantes”, sejam elas por interesses políticos ou culturais.

A obra analisa brilhantemente diversas fontes e linguagens, compreendendo os caminhos pelos quais se produziu o Nordeste, no âmbito da cultura brasileira. Neste sentido, o discurso acadêmico, jornalístico, político, literário, fílmico, teatral, musical, que constituíram como objeto de conhecimento sobre o Nordeste, foi sendo analisado como “produtoras de realidade” e, portanto, responsáveis pela maneira como compreendemos a região até os dias atuais.

O livro em questão já é um clássico da historiografia brasileira contemporânea. Constituído a partir de conceitos e pressupostos do pós-estruturalismo, em especial a partir dos autores Michel Foucault e Gilles Deleuze, a obra vem servindo como uma espécie de “manifesto” a visão muitas vezes limitada sobre o Nordeste, servida de preconceitos e desinformações sobre a região.

Repensando a nossa identidade enquanto nordestino, Durval Muniz de Albuquerque Jr. conseguiu questionar a maneira “folclórica” em que nos colocamos. Fugindo dos lugares comuns, da qual a cultura nordestina é engessada, o livro A Invenção do Nordeste e outras Artes ainda carece de uma maior penetração para um público maior, fugindo das limitadas paredes da academia.

Ao pensar o Nordeste por dentro, através das condições que a possibilitaram, Durval Muniz de Albuquerque Jr. optou por passear pelas entranhas e amarras de uma região que sofre pelas limitadas visões impostas pela mídia e pela crítica cultural brasileira, e mais, questiona a nossa própria postura em afirmar e reafirmar a concepção folclórica e regionalista do qual nós insistimos em perceber como homogênea e unitária. Exemplo é justamente o período junino, quando a “paisagem urbana” das grandes cidades nordestinas é maquiada por uma falsa concepção rural.

O projeto intelectual do historiador paraibano passa pelo questionamento das identidades regionais, e que podem ser encontradas não só no livro A Invenção do Nordeste e outras Artes, mas também em outros estudos igualmente significativos, a exemplo dos livros: Nordestino: Uma invenção do falo (uma história do gênero masculino – Nordeste 1920/1940), publicado em 2003 e Preconceito contra a origem geográfica e de lugar – As fronteiras da discórdia, lançado em 2007. Neste sentido, percebo a importância fundamental do pensamento de Durval Muniz de Albuquerque Jr. na atualidade, como “reinventor” da maneira de pensar a região Nordeste.

Origem: Publicado no Jornal Contraponto e no Blog Caixa Baixa em 2012.

Livro: ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de . A Invenção do Nordeste e outras Artes. São Paulo: Cortez, 1999.