OS ACROBATAS DA LINGUAGEM

25 08 2013

Acrobata revista

Por Bruno Gaudêncio

Vivemos um bom momento quanto à circulação de revistas culturais no Brasil. O mundo virtual das redes sociais e dos sites e blogs independentes expressam bem à diversidade como marca maior deste novo contexto. Com a internet multiplicaram-se as experiências e os diálogos entre editores, autores e leitores. Por outro lado não devemos esquecer que as revistas culturais de variedades em formato impresso no país estão morrendo pouco a pouco, a exemplo da Bravo, que recentemente deixou de circular de forma definitiva.

Entretanto, mesmo sendo um ato de resistência, algumas revistas culturais vem surgindo de forma impressa e ao mesmo tempo virtual no Brasil, mostrando o valor e a importância deste suporte no que se refere à divulgação, a produção e a reflexão da cultura, em especial da literatura brasileira contemporânea. Exemplo é a Revista Acrobata, advindo da cidade de Teresina, Piauí e editada pelos escritores Aristides Oliveira, Demétrios Galvão, Meire Fernandes e Thiago E.

A Revista segue uma linha de publicações de literatura, audiovisual “e outros desequilíbrios” (no dizer dos próprios editores), que de forma marcante já no editorial do seu primeiro número (lançado em junho de 2013), explica o nome dado ao periódico, bem como o seu objetivo maior “Acrobata: metáfora que mobiliza linguagens – ação que inventa mundos. Articular pessoas e fazeres, movimentos e afetos, ideias e geografias, desfolhar bandeiras e atravessar-cortar-perfurar-possibilitar-vazar as barreiras da insensatez”. Portanto, a Revista Acrobata se coloca como uma alternativa atual no que se refere à publicação de textos que exaltam de maneira independente e articuladora a reflexão sobre o campo artístico-cultural no país.

O número de estréia da revista Acrobata traz a marca da diversidade, porém privilegiam três tipologias de publicações: poemas, ensaios sobre literatura e ensaios sobre o audiovisual. Destaque para os poemas dos paulistanos Augusto de Campos e Ademir Assunção, que desfilam juntamente com os do maranhense Salgado Maranhão e a africana Conceição Lima (natural de São Tomé e Príncipe), além de produções de valores locais que vem se destacando, como a potiguar Sinhá e o piauiense Rodrigo M Leite. Ainda no campo literário podemos citar o conto de Marcelino Freire, única ficção nas páginas do periódico.

Numa montagem bem equilibrada, de textos e imagens, a revista se direciona para uma poesia quase sempre inventiva, de herança surrealista, concretista ou beat, assim como um cinema de arte com feições sofisticadas, como nos enfoques sobre o cinema indígena, em texto de Charles Bicalho e as reflexões sobre o cinema de Godard, por Nayhd Barros.  Sem contar a preocupação da Acrobata em compreender através de panoramas ou relatos de memórias, o contexto cultural do país ou de Teresina, como nos casos dos esclarecedores textos “Revistas Literárias no Brasil”, do poeta e editor Edson Cruz e “O Cenário da Poesia em Teresina”, de Wanderson Lima.

Entre os pontos altos da publicação, não há como deixar de destacar a ótima e longa entrevista realizada com o poeta e editor Sérgio Cohn, no qual houve um aprofundamento da compreensão das ações deste dedicado articulador cultural, – responsável por importantes projetos editoriais no Brasil, que a frente da Azougue  lançou recentemente, por exemplo, a caixa Poesia.br, – um importante panorama da história da poesia brasileira.

Desta forma, como um bom acrobata, a Revista Literária piauiense estreia em grande estilo, com um desempenho raro de destreza cultural para um primeiro número, demarcando em suas páginas uma visível sofisticação, independência e labor visual. Os editores se utilizaram muito bem dos pêndulos e trapézios, dialogando com o Brasil e o mundo. O Acrobata nasceu impresso, mas logo mais ficará disponível para os todos os leitores em formato virtual, revelando nestes dois suportes que na terra de Torquato Neto e Mário Faustino, se faz sim o melhor da poesia inventiva nordestina, em sintonia com o todo o universo da linguagem.

Revista: Acrobata, Nº 1, Teresina: Junho de 2013.





A ARTE DA PEDRA É SER O SILÊNCIO QUE CRESCE

1 07 2013

capa pedra.inddPor Bruno Gaudêncio

José Inácio Vieira de Melo atualmente é um dos principais nomes da poesia brasileira contemporânea. Alagoano, mas radicado na Bahia, sua lírica vem encantando e conquistando cada vez mais o destaque merecido no cenário nacional. Uma poesia de forte teor telúrico onde os elementos do sertão são montados e decantados numa dimensão universal e muitas vezes épica.

Pedra só (Escrituras, 2012) é o exemplo claro desta concepção estilística.  José Inácio Vieira de Melo constrói “pedra por pedra a sua solidão”, num silêncio acompanhado por referências estéticas e dialógicas que vão desde Gerardo Mello Mourão, passando por Herberto Helder e Cecília Meireles, chegando aos cantadores e vaqueiros do sertão nordestino, numa toada densa produzida a partir de uma maquinaria refinada e sonora: “Minhas mãos trabalham na imensidão. Longa batalha em busca da beleza”, diz o poeta no poema Aurora.

O livro começa com um poema longo, que dá nome a obra: Pedra Só. Depois sua lírica vai se mostrando em outras sessões intituladas Aboio Livre, Toada do Tempo, Partituras, Parábolas, o que dão o calibre musical de um alento cavalgado no ritmo dos sertões. Não é toa que a Fazenda “Pedra Só” é o fio condutor, matéria e a espinha dorsal de toda a obra. O nome poético da fazenda, da pedra solitária, onde dia a dia o seu ofício é refinado, amolado, curtido, implodido, em toda uma cartografia lírica.

Neste eixo poético elementos da atmosfera sertaneja (como cavalos, algarrobas, poeira, éguas, entre outros) ganham uma dimensão antológica e universal. Amparado em figuras da antiguidade clássica, ou do mundo bíblico, José Inácio Vieira de Melo recria um sertão mítico de palavras e sons, que possui o seu próprio evangelho, numa lira onde a infância, a memória, a sexualidade se unem na tessitura de “um cavaleiro onde fogo ganha dezenas de significados”:

Eu regresso e lembro que fui, que sou e serei

Um cavaleiro cozido nas brasas do Sertão,

Dentro dos couros, com o sol no espinhaço,

No meio do tempo, no meio dos tempos.

 

Nesta missão no meio do tempo e da memória, personagens bíblicos e mitológicos dialogam, numa poesia liricamente demarcada pelo “épico da terra”, mas com garras firmes na universalidade ocidental, onde Teceu, Ulisses, Narciso, Davi e Homero se fazem presentes como personagens, assim como seus vaqueiros e animais, de ontem e de hoje, de sua lembrança e afetividade. Há espaços ainda para belas homenagens em sua Pedra Só, como a Leonardo da Vinci, a cidade de Ouro Preto, a poeta Mariana Ianelli e os seus filhos Carlos Moisés e Gabriel Inácio.

Na poesia de José Inácio Vieira de Melo o domínio da linguagem é uma das suas principais marcas. Seu simbolismo reescreve a si mesmo no “útero da casa”, no chão de todas as coisas, onde as agarrobas passeiam pela infância e a memória dança numa epifania do corpo e da declamação. Pedra Só, assim se apresenta como abrigo e santuário, como rubrica e transgressão, numa poesia marcante e nobre.

Origem: Publicado  no Site Zona da Palavra.

Livro: VIEIRA DE MELO, José Inácio. Pedra Só. São Paulo: Escrituras, 2012.





CONCEIÇÃO LIMA E A LINGUAGEM-MORADA

8 12 2012

O utero

Por Bruno Gaudêncio

O Útero da Casa (Lexonics, 2º edição, 2012) é um livro de poemas de Conceição Lima, um dos nomes mais importantes da poesia africana contemporânea. Poeta e jornalista conceituada, natural de Santana, na Ilha de São Tomé e Príncipe, Conceição estudou jornalismo em Portugal e Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros em Londres, Inglaterra, onde também conquistou o grau de mestre. Foi durante anos produtora dos serviços de língua portuguesa na BBC de Londres. Exerceu cargos de direção de rádio, televisão e em periódicos do seu país, aonde chegou a ser produtora e coordenadora do principal sistema de Televisão, a TVS – Televisão São-Tomense.

Porém, apesar de sua dedicação ao jornalismo, tanto em São Tomé e Príncipe como na Inglaterra, é na poesia que seu nome se firma como uma das melhores vozes de sua nação. Sua trajetória poética iniciou-se em livro justamente com O Útero da Casa (Editorial Caminho, 2004) e logo depois vieram mais dois outros títulos: A Dolorosa Raiz de Mincondó (Editorial Caminho, 2006) e O País de Akendenguê (Editorial Caminho, 2011). Em 2012, com o patrocínio do Banco Equador, de São Tomé e Príncipe, os seus três livros ganharam segundas edições.

Constituído por 28 poemas, O Útero da Casa demonstra desde o início a força poética de uma autora comprometida com si mesmo e seu país de origem. Através de “lugares metonímicos”, no dizer da crítica literária portuguesa Inocência Mata (prefaciadora da obra), Conceição Lima deslumbra o seu leitor ao construir e reconstruir os seus lugares de afetividade; o seu país, rico em simbolismos e lutas, a partir de um “eu feminino”, em que a casa ganha uma dimensão de amargura e rememoração.

Amargura causada por um arquivo de memórias e sensações. Rememoração de lugares íntimos, de pessoas próximas, causando um “imaginário territorial”, numa cartografia sentimental, onde o traço político se efetiva. Um passado que busca combater um período sombrio e perturbador de seu país, num momento pós- independência ou pós-colonial.

A história recente da Ilha de São Tomé e Príncipe é marcada por diversas lutas, pois o pequeno país africano passou pelo processo de descolonização com o surgimento de grupos nacionalistas, nos anos 1960, até a conquista da independência em 1975. Porém a liberdade partidária esteve ceifada durante muitos anos, visto que apenas em 1990 iniciou-se a transição para a democracia, com a institucionalização do pluripartidarismo e a adoção de uma nova constituição.

Portanto, na poesia de Conceição Lima um traço marcante é a tentativa de uma “reconstrução identitária”- coletiva e ao mesmo tempo individual – no qual o lugar matriarcal ganha um primeiro plano, numa voz feminina que se forma num universo de memórias, em meio a barcos, canaviais, praças de lutas, datas comemorativas, amores e amizades, dentre outros.

Um exemplo do universo político na poesia de Conceição Lima esta presente no poema Os Heróis, onde uma atmosfera mórbida é desvendada numa lógica de memórias conflituosa perceptivelmente relacionada às lutas de um país por independência e democracia:

Na raiz da praça

sob o mastro

ossos visíveis, severos, palpitam.

Pássaros em pânico derrubam trombetas

recuam em silêncio as estatuas

para paisagens longínquas.

Os mortos que morreram sem perguntas

regressam devagar de olhos abertos

indagando por suas asas crucificadas.

É percebível a ruptura com “o colonizador”, com uma “imagética do passado”, algo presente também em poemas como “1975”, “Mostra-me o Sangue Agora” e “Manifesto Imaginário de um Serviçal”. Há ainda outro valor identitário presente em O Útero da Casa, numa assimilação de uma identidade maior, a africanidade, algo continental, pois a partir do meio do livro a autora amplia-se poeticamente numa busca mais coletiva que íntima, mais africana que são tomense, – algo que se cristalizará nos dois livros subseqüentes da autora: A Dolorosa Raiz de Mincondó e O País de Akendenguê.

Concluo assim a minha breve incursão sobre um livro que considero paradigmático no universo da produção poética africana contemporânea, – por ser um maravilhoso tratado de amor a um país, num discurso que prende por sua historicidade, por seus valores memorialísticos, afetivos e políticos. O Brasil e o mundo precisam conhecer mais a poesia de Conceição Lima, aquela que afirma que através de uma linguagem morada “Não basta o delírio das lágrimas libertas”.

Origem: Publicado no jornal Contraponto e na Revista Literatos, de Moçambique.

Livro: LIMA, Conceição. O Útero da Casa. 2º edição. São Tomé e Príncipe: Lexonics, 2012.





A MÁQUINA DO POEMA, O MARCO DO POETA

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

W. J. Solha é reconhecidamente um artista múltiplo e intenso. Sua maquinaria criativa se expressa nas mais diversas linguagens, mantendo um nível impressionante de equilíbrio estético e inventividade, seja como ator, escritor, artista plástico, roteirista, dramaturgo… Sua volumosa obra vem sendo apresentada no âmbito da literatura de forma cada vez mais inquieta e próxima de um marco cheio de referências intelectuais.

É o caso do recém lançado Marco do Mundo (Ideia, 2012), um poema longo que dá continuidade a sua trilogia iniciada em 2004 com o impactante Trigal com Corvos (vencedor do Prêmio U.B.E do Rio de Janeiro em 2005). O terceiro volume da trilogia que possui o título provisório de “Ecce Homo” já está a caminho e promete compor o seu panorama poético definitivo.

“Marco do Mundo” é um poema denso e abrangente em vários aspectos, repleto de referências intelectuais e artísticas. Um itinerário de compulsões, devaneios, impulsos e alusões diversas, tecendo um universo caótico de leituras sobre marcos literários, artísticos, naturais e históricos, que cadenciam o processo de leitor do mundo do autor. W. J. Solha vai montando um poema, que de maneira “surreal”, dialoga com seus “mestres diversos”, edificando em cada andar, confuso e cheio de “abalos”, uma “tresloucada Babel”, aglutinado assim seres e objetos das mais distintas eras.

O livro pode ser considerado como uma incursão na complexa teia do fazer poético, trazendo uma “noção de poema saga”, como bem afirmou o escritor Fabrício Brandão. Porém tal saga não traz aventuras romanceadas, mas sim uma ação angustiante de um artista que não cabe no seu próprio universo de criatividade, extrapolando os sentidos e limites da vida através da arte, em cores pintadas por legados aflitivos. Daí sua busca incessante por seu “Marco do Mundo”:

“Embora espere tanto de si quanto de um pianista de bar

 ou de escultor de vitrina

o Poeta tem,

á custa da disciplina

a mente tomadas de dados,

vinda de todos os lados,

(…)” (pp.21/22)

 

Uma bricolagem descomunal, uma máquina sendo montada, cada peça no consciente e inconsciente de um artista “incomodado” com a realidade interna, seduzido pelas loucuras da obra épica, trazendo para cada linha um marco sem limites de referências intelectuais.  Marcos estes artísticos e históricos prioritariamente, onde couberam suas obsessões e temas recorrentes em outras obras, como as peças de Shakespeare, a bíblia (principalmente no que se refere à dessacralização), a poesia popular, o expressionismo alemão, a pintura renascentista, a física quântica…

Estas paisagens ou territórios afetivos e estéticos vão sendo montados de forma intensa e Solha inebria seus leitores com uma cartografia do excesso, em que nomes, obras e lugares vão sendo jorrados como uma cachoeira, em sua construção épica, num jogo de libertação e ao mesmo tempo de domínio da palavra. Ao final o Poeta canta o seu enigma e relata o seu propósito:

“Cabe ao Poeta

 portanto,

 avançar,

 intrépido

 na página em branco”

(p.97)

Aoperceber certa necessidade impiedosa de vencer o tempo e a morte, o escritor W. J. Solha angustiasse com o passar das horas, dos dias, dos anos, pois tem muito a dizer ainda, mesmo que o tempo venha corroendo sem piedade o seu corpo. Aos seus 71 anos de idade, visitando o próprio itinerário do seu desequilíbrio erudito, o seu marco do mundo é a prova cabal disso, que o artista inquieto e múltiplo ainda tem muito a expressar através das palavras.

Origem: Publicado no Jornal Contraponto e no Blog do Caixa Baixa em 2012.

Livro: SOLHA, W.J.  Marco do Mundo.João Pessoa: Ideia, 2012.





O EU E O NÓS NA POÉTICA DE CARLOS ARANHA

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

“Eu já era /poeta solitário/ fazendo artigos/ como se fossem/ discos, filmes, canções/”.

O trecho do poema “Veja” contido na obra inaugural “Nós an Insight” (Linha d’água, 2011) de Carlos Aranha é revelador em diversos aspectos. Conhecido em todo o estado da Paraíba por sua militância artística, principalmente no jornalismo cultural, Carlos Aranha demorou décadas para publicar o seu primeiro livro. Esta ausência criou uma imensa expectativa por parte dos seus leitores diários e artistas que vem observando desde a década de 1960, sua atuação na produção de peças, discos e filmes, entre outras linguagens.

Carlos Aranha é um destes nomes que ainda mobilizam o cenário cultural da Paraíba na atualidade (em especial de João Pessoa). Suas opiniões criam certas concordâncias e rejeições e são avaliados sempre como posicionamentos coerentes, atuais e firmes. Aliás, como sua própria poesia e personalidade. Filho das vanguardas estéticas brasileiras, como o Tropicalismo e o Cinema Novo, Aranha vivenciou particularmente os movimentos culturais em seu estado, incorporando atitudes, discursos e imagens, que levaram a compor o seu repertório poemático.

“Nós an Insight” caracteriza-se pelo impulso poético do seu autor. Numa percepção “motora do instante”, Carlos Aranha deflagra uma hermenêutica própria de sua geração, marcada pela herança errante das vanguardas, em especial a tradição tropicalista (da qual Caetano Velloso se mostra como um guru inspiratório). Mas não é só isso quando se fala em inspiração ou diálogo emotivo e cultural, percebe-se claramente um “intercâmbio atemporal” com a poesia de Augusto dos Anjos.

A alusão dicotômica “O Eu / O Nós” é a espinha dorsal da gramática estética que nos apresenta Carlos Aranha. O “Eu de Augusto” absorve então os outros, numa poética sofisticada e madura, da qual referências “pop’s e cult’s” vão sendo apresentadas. Cada verso surpreende vindo como um signo rompido, alucinante, numa obra aberta (no dizer de Umberto Eco). Exemplo máximo da relação “O Eu/O Nós” que podemos trazer de início é o poema “Nós”, que abre o livro:

“Assumo o ser que somos nós

Deus é ser de tom tamanho

Que seu silencio é som da nossa voz”

(p.17)

Outro dado importante na poesia de Carlos Aranha é o lado crítico, nunca contemplativo da realidade. A cidade de João Pessoa, as amizades culturais, os filmes, as referências estéticas, – nada passa sem um olhar avaliador, elucidativo, às vezes quase prosaico, como no poema “Yesterday’s apocalyse”, onde sobram críticas ao formalismo e a hiperinterpretação por parte da crítica literária contemporânea.

Marca presente na poesia de Carlos Aranha é a “implosão das identidades”, onde os lugares, as culturas e as pessoas, numa maquinaria múltipla de referências, se dispersa, sem conexões aparentes.  Tudo numa interligação de artistas, filmes, peças, num culto a “diversidade do mundo”, presente especialmente no poema “Pra que Tant’identidade”:

“A diversidade canta em seus versos

Porque a poesia

Quando se conflita

É mais que o vão vôo da vida”.(p.25)

 Nesta incursão identitária, cabem poemas em inglês, memórias da repressão, cânticos de amor a cidade de João Pessoa, diálogos com artistas amigos como o escritor José Nêumanne Pinto e a compositora Cátia de França, a afetividade sexual na presença festiva dos corpos. A universalidade artística em diálogo constante com a localidade cultural: “Meu espírito paira/ entre Nova York e Cruz das Armas” (p.80)

Todavia, acredito que, de todos os poemas, aquele que representa mais o universo poético de Carlos Aranha neste seu primeiro livro, é “About me”. Demarcado por uma memória afetiva, o autor se despe num jogo de revelações pessoais, em que os lugares, os endereços de sua subjetividade ficam mais nítidos e lúcidos diante das incertezas do passado, do presente e do futuro.

Mesmo tendo um traço prosaico, que muitas vezes se afasta da poesia, Carlos Aranha estreou bem, num livro forte e ousado, cheio de instantes marcantes. “Nós an Insight” é uma obra viva e reveladora, advinda de um poeta que não cabe dentro de si mesmo, que transcende as suas referencias estéticas, os lugares e as culturas, numa corrida louca e interna entre o Eu e o Nós de cada dia.

Livro: ARANHA, Carlos. Nós an Insight. João Pessoa: Linha d’água, 2011.





UM CÂNTICO DESSACRALIZADO

29 11 2012


 Por Bruno Gaudêncio

A Paraíba é reconhecida nacionalmente como um estado brasileiro de bons poetas. Nomes como Augusto dos Anjos, Leandro Gomes de Barros e Sérgio de Castro Pinto (para citarmos apenas três), se sobressaíram em suas gerações, dentro de uma tradição estética inovadora, alcançando vôos sublimes no manejo da linguagem.

Na atualidade, a poesia paraibana se mantém firme e continua neste propósito (seja através de modelos tradicionais ou inovadores de composição), com amostras dinâmicas e significativas de expressividade, que recaem num painel de temas e linguagens dos mais variados, numa consonância eminente com a produção poética brasileira contemporânea.

No entanto, dentro deste quadro de diversidade, é necessário salientarmos no campo poético local quais vozes ecoam de maneira diferenciada, explorando fórmulas e sentidos distintos de elaboração poética. Tal propósito formula ideários “de evolução da linguagem” no estado da Paraíba, percebendo os (des)equilíbrios presentes na formatação de nomes e obras.

Neste quadro de vozes distintas o nome do poeta Joedson Adriano está presente. Natural de Bayuex, Paraíba, o autor publicou sua primeira obra no gênero poético, intitulada Ode aos Deuses (João Pessoa, Edição do Autor, 2009). Desta maneira, o propósito deste ensaio será salientar as principais características da poesia do autor através da referida obra.

O livro chama atenção inicialmente por não possuir uma edição dentro das regras editoriais comuns de mercado, não havendo na capa o nome do autor, nem a numeração das páginas. A proposta editorial recai sobre um formato independente, salientando um propósito transgressivo na própria materialidade do artefato impresso.

Quanto à formatividade que o autor empreende dentro das estratégicas lingüísticas, sejam elas na apropriação de recursos do campo sonoro (musicalidade, assonância, dissonância interna) ou recursos do campo visual (fragmentação vocabular, diagramação, paginação), Joedson Adriano recai num “jogo narrativo” no qual a dessacralização é o elemento mais eminente, com um subjetivismo que adentra em versos (des)contínuos e fortes.

O autor salienta: “Eu sou o profeta prático sem pátria e sem fé” e canta seu ateísmo de maneira densa ao proclamar: “dos meus atrevidos alvos e apócrifos trovões”. Joedson procura elementos internos, desconstruindo para si, as referências religiosas que carrega, cantando absorto, a sua maneira impar de impor signos de transgressão. Em sua construção formal “palavra puxa palavra” e “ideia puxa ideia”, em termos que caracterizo como condutores de sentidos internos. Vejamos este trecho do poema-livro: “senão nas hostis hostes das hóstias consagradas/ que o diminuto dom dos doidos indomáveis”. É perceptível que o “h” e o “d” dão os tons sonoros ao poema, cadenciando os versos numa maneira infreqüente e musical. Seu estilo eu poderia chamar de um Épico Pós-moderno, pois o autor se apropria de elementos clássicos de uma poética tradicional, todavia com marcas profundas de terminologias e concepções estilísticas contemporâneas, o que o coloca num lugar especial dentro da produção poética paraibana contemporânea.

A carga simbólica que carrega o autor recai numa busca pela liberdade e por um profetismo exacerbado, no qual a marca é a busca por “reino dos livres espíritos”, longe das “caducas mentiras” que as religiões proclamam: “que me livre com leis dos livros marginais/ que não existe deus ou demônio domador”. Seu cântico de contestação e rebeldia, no qual a fé é pensada como uma verdadeira doença, traz um outro elemento temático que é a busca pelo prazer liberto, da vontade de poder, longe das amarras mentais que a religião oferece. Vejamos este verso no qual a ironia e a transgressão estão presentes: “eu mesmo não quero a graça e sim gozar nas graças”.

Joedson Adriano, no livro: Ode aos Deuses empreende também uma forte metapoesia, consciente e severa, no qual muitas vezes o autor dialoga com si mesmo “pelos meus versos vindos de versos anteriores/ e fazedouros verazes de mais versos vindouros”. Sua concepção estilística também fica evidente quando afirma: “a poesia é piração e pretensiosa cura/ cerebral acupuntura pro artista ateu.”

Critica contundente a opressão das religiões, dessacralização, metapoesia, estes são alguns dos elementos que conseguimos formular diante da leitura do Ode aos Deuses. Um livro difícil de ler, dentro de uma estrutura “pesada” e uma formatividade “agressiva”, carregando um estilo fora dos padrões normativos da contemporaneidade. Todavia, com uma opção estética inovadora.

Origem: Publicado originalmente no Livro “Coletânea Outros Olhares da Literatura Paraibana” (Sebo Cultural), em 2011.

Livro: ADRIANO, Joedson. Ode aos Deuses. João Pessoa: Edição do autor, 2009.