O REINVENTOR DO NORDESTE

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

O Nordeste é rico em autores, artistas e intelectuais que escreveram suas obras a partir de alusões a sua própria região. Nomes como Gilberto Freyre, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, Luiz Gonzaga, Glauber Rocha (só para citarmos alguns das mais diversas áreas e linguagens), desenvolveram, muitas vezes, suas concepções sociais, históricas e estéticas dentro de um universo de imagens e discursos que privilegiaram idéias e valores marcados por estereótipos a acerca do Nordeste, a exemplo da Seca, do Messianismo, do Cangaço, da Miséria, etc. O mesmo pode ser identificado com recorrência na mídia brasileira, que privilegia estas mesmas imagens clichês e preconceituosas.

Tais representações sobre o Nordeste brasileiro são fruto de uma pseudo-unidade cultural, geográfica e étnica, no qual a região foi recortada por um campo de estudos e produções culturais, a exemplo da literatura (sobretudo a Regionalista), as artes plásticas, a música, o cinema, a produção acadêmica (em especial as ciências sociais e a historiografia), como também por estratégias políticas e institucionais. Neste sentido, a região foi tomada como uma invenção, pela repetição regular do caráter do Nordeste e de seu povo.

Todas estas reflexões fazem parte do livro A Invenção do Nordeste e outras Artes, do historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque Jr., publicado em 1999, através da Fundação Joaquim Nabuco e da Editora Cortez. A obra, que já está em sua quinta edição, foi vencedora do Prêmio Nelson Chaves de teses sobre o Norte e o Nordeste brasileiros em 1996, sendo fruto do doutoramento do autor em história pela Universidade de Campinas (UNICAMP), apresentado em 1994, com o título de “O Engenho Antimoderno: a invenção do Nordeste e outras artes”.

O historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 22 de junho de 1961, todavia atualmente reside na cidade de Natal onde é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sua experiência na área de História recai no campo da Teoria e Filosofia da História, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, nordeste, masculinidade, identidade, cultura, biografia histórica e produção de subjetividade. Faz, neste momento, estágio de pós-doutorado junto a Universidade de Coimbra, em Portugal. Até o ano passado foi Presidente da ANPUH (Associação Nacional de História), principal órgão representativo dos historiadores no país.

Uma das hipóteses centrais do livro A Invenção do Nordeste e outras Artes é que o Nordeste é uma invenção recente na história brasileira, mas precisamente uma idéia firmada nas primeiras décadas do século XX, sendo gestada no cruzamento do que Durval Muniz de Albuquerque Jr. chama de “práticas regionalizantes”, sejam elas por interesses políticos ou culturais.

A obra analisa brilhantemente diversas fontes e linguagens, compreendendo os caminhos pelos quais se produziu o Nordeste, no âmbito da cultura brasileira. Neste sentido, o discurso acadêmico, jornalístico, político, literário, fílmico, teatral, musical, que constituíram como objeto de conhecimento sobre o Nordeste, foi sendo analisado como “produtoras de realidade” e, portanto, responsáveis pela maneira como compreendemos a região até os dias atuais.

O livro em questão já é um clássico da historiografia brasileira contemporânea. Constituído a partir de conceitos e pressupostos do pós-estruturalismo, em especial a partir dos autores Michel Foucault e Gilles Deleuze, a obra vem servindo como uma espécie de “manifesto” a visão muitas vezes limitada sobre o Nordeste, servida de preconceitos e desinformações sobre a região.

Repensando a nossa identidade enquanto nordestino, Durval Muniz de Albuquerque Jr. conseguiu questionar a maneira “folclórica” em que nos colocamos. Fugindo dos lugares comuns, da qual a cultura nordestina é engessada, o livro A Invenção do Nordeste e outras Artes ainda carece de uma maior penetração para um público maior, fugindo das limitadas paredes da academia.

Ao pensar o Nordeste por dentro, através das condições que a possibilitaram, Durval Muniz de Albuquerque Jr. optou por passear pelas entranhas e amarras de uma região que sofre pelas limitadas visões impostas pela mídia e pela crítica cultural brasileira, e mais, questiona a nossa própria postura em afirmar e reafirmar a concepção folclórica e regionalista do qual nós insistimos em perceber como homogênea e unitária. Exemplo é justamente o período junino, quando a “paisagem urbana” das grandes cidades nordestinas é maquiada por uma falsa concepção rural.

O projeto intelectual do historiador paraibano passa pelo questionamento das identidades regionais, e que podem ser encontradas não só no livro A Invenção do Nordeste e outras Artes, mas também em outros estudos igualmente significativos, a exemplo dos livros: Nordestino: Uma invenção do falo (uma história do gênero masculino – Nordeste 1920/1940), publicado em 2003 e Preconceito contra a origem geográfica e de lugar – As fronteiras da discórdia, lançado em 2007. Neste sentido, percebo a importância fundamental do pensamento de Durval Muniz de Albuquerque Jr. na atualidade, como “reinventor” da maneira de pensar a região Nordeste.

Origem: Publicado no Jornal Contraponto e no Blog Caixa Baixa em 2012.

Livro: ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de . A Invenção do Nordeste e outras Artes. São Paulo: Cortez, 1999.

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MÁXIMAS EM MÍNIMAS

29 11 2012

Por Bruno Gaudêncio

Um micro-conto tem uma dimensão aforística ímpar. Audaciosa em sua estrutura sintética pretende em poucas frases e palavras expressar uma situação limite. Algo parecido como o que o poeta Mário Quintana afirmou ao definir o que seria a poesia: “(…) a poesia nada mais é/ que um soco/ na alma do leitor”.

Eu diria que um bom micro-conto deve ter uma definição próxima da afirmação do mestre gaúcho. O impacto que uma narrativa mínima, como é o caso de um micro-conto, deve ocasionar tem como máxima o possível incômodo causado nos seus leitores, – não importando a forma, se lúdica, reflexiva ou enigmática.

Acredito que o escritor Janaílson Macêdo conseguiu, nesta sua primeira coletânea de micro-contos, incomodar (no bom sentido da palavra), causando impactos das mais diferentes maneiras, dentro dos limites que o próprio gênero impõe.  Intitulada Microf(r)icções, a pequena obra, composta por 60 narrativas curtas, expõe situações comuns atreladas a relatos históricos, de maneira segura e objetiva, sem deixar de lado o encanto da descoberta poética impulsionada pelas circunstâncias.

Ás vezes enigmática, outras vezes lúdica ou humorística, ou até mesmo banal em determinados casos, – os textos deste livro seguem um caminho acautelado em que o cotidiano, os acontecimentos históricos e o “metaconto” (ou metanarrativa), se encontram.

Um cotidiano demarcado por situações que envolvem muitas vezes os temas das relações interpessoais, a sexualidade e a morte. Acontecimentos históricos, que perpassam situações referidas à Segunda Guerra Mundial, as questões indígenas, as Cruzadas, entre outros. “Metacontos”, quando o autor reflete o próprio ato narrativo compondo situações ficcionais sobre a prática de escritor ou se referido a autores ou obras de sua predileção.

Aliás, este último aspecto é o ponto máximo de todo o livro. Exemplo é o genial micro-conto em homenagem ao escritor russo Dostoiévski “Encarcerado até o fim dos tempos em seu próprio universo, Dostoievski manda cartas imaginárias para si mesmo e descobre, lendo e relendo cada uma delas, que só existe um lugar para a liberdade: a ficção”.

Liberdade esta que o próprio escritor Janaílson Macêdo conseguiu produzir, exercitando de maneira adequada e abalizada nestes micro-contos, as maneiras próprias relacionadas aos limites das rupturas inerentes a existência humana- em narrativas máximas em formato mínimo.

Origem: Prefácio do livro, lançado em 2012.

Livro: LUIZ, Janaílson Macêdo. Microf(r)icções. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012.





O REVESSO DAS COISAS

29 11 2012

 

 

Por Bruno Gaudêncio

De acordo com Edgar Allan Poe um bom conto é a revelação de um acontecimento extraordinário e seu ponto principal é o desfecho, o final, que precisa ser surpreendente.  No caso dos contos que constituem a coletânea “Do avesso” (Com-Arte, 2010), do escritor é psicólogo paulistano Roberto Tardivo, o extraordinário e o surpreendente se fazem presentes em toda a urdidura das ficções, a começar pelos próprios títulos de algumas das narrativas, a exemplo de A Mãe do Filho e os contos complementares Graça e Desgraça.

A palavra “reviravolta” talvez seja a principal nomenclatura existente na gramática ficcional destes 19 narrativas sintéticas, nos quais os personagens invertem-se em seus papéis de protagonistas, em ações cheias de indeterminações. É o caso do conto Desembarque, no qual o leitor fica a se perguntar quem seria o personagem Marcos Nobre? Um impostor, oportunista? O verdadeiro em uma infinita crise de identidade? Camadas de sentidos vão sendo colocados pelo autor, em frases lapidares, – ações voltadas pelo lado interno dos personagens, o que causa um encantador revesso das coisas…

No primeiro conto da coletânea, intitulado Queda Livre, o fator surpresa (demarcado por reviravoltas constantes), pode ser considerado como exemplo mais evidente do brilhantismo do contista, no qual o personagem ao narrar sua trajetória de “ascensões e quedas”, são expostos de maneira ímpar, num desfecho que nos deixa verdadeiramente encantados: “E fui dar nesse breu em que não se sabe direito quem é quem. Em que não há chão. Onde as palavras voam, à procura de si mesmas, para aterrar em areia movediça. Eu crio pessoas” (p.13). No parágrafo seguinte Renato Tardivo arremata: “Enfim escritor, eu sigo a forjar vida – a minha e a dos outros” (idem).

Em sua tarefa de “forjador de vidas” e de “mundos interiores”, cheios de dúvidas e mistérios, há um “poder de condensação” que muito bem formulado, faz de Renato Tardivo um estilista na arte do conto, mesmo sendo Do Avesso um livro uma estreia. Não é toa que João Anzanello Carrascoza, também exímio contista, chega a afirmar na apresentação da obra (contida na orelha do livro) que o autor se destaca pelo timbre, pela colocação, pelo vigor.

Além do brilhantismo dos contos, em que “enigmas” e “fantasias” se complementam em unidades de efeitos complexos, o leitor não deixar de perceber também as belas gravuras de Adriana Bento (ilustradora), que estão envoltas das ficções, e que expressam muito bem o lado surpreendente dos contos, do início ao fim. Eis um grande contista que a literatura brasileira ganha neste início de século.

Origem: Publicado no Jornal Contraponto e no Blog Caixa Baixa em 2011.

Livro: TARDIVO, Renato. Do avesso. São Paulo: Com-arte, 2010.





Nasce a Terceira Margem do Livro!

28 11 2012

Bem vindo ao  “A Terceira Margem do Livro”, blog de resenhas literárias de autores contemporâneas, editado pelo escritor, jornalista e historiador Bruno Gaudêncio.